Vilão.

Acordei atrasado. Sem novidades. Esqueci a comida na geladeira. Uma pena, pois já tinha até imaginado como seria o sabor maravilhoso do almoço requentado na cozinha do trabalho. Saí às pressas, de jaqueta, contrariando o sol que fazia às sete e meia da manhã. Eu sabia que era mais um daqueles dias em que São Pedro tenta me enganar.

O caminho de casa ao ponto de ônibus não teve novidades. O senhor que fica na janela a cumprimentar os que passam, continuava lá, debruçado. O vizinho já estava ligando o carro, após beijar a filha e a esposa que iam para a escola. O mercadinho já estava aberto e o cheiro de pão recém-assado me fazia andar mais devagar, só para apreciar o aroma sem igual.

No ônibus, o cobrador ouvia suas músicas nos fones de ouvido e não escutou meu “bom dia”. Eu estava atrasado, mas fiquei mais preocupado com a ignorância de um homem que reclamava da demora do motorista que abria a porta do meio e descia o elevador para uma senhora subir com sua cadeira de rodas.

Eu não consegui sentir raiva deste homem, como me pareceu que sentiram as outras pessoas que o lançavam olhares de reprovação.

Tudo bem, eu entendo que a maioria de nós se sente incomodado com a ofensiva aos que aparentam mais frágeis superficialmente, mas quem sabia das fragilidades daquele homem além do próprio? Quem mais sabia dos problemas que ele enfrentava em casa, com a família, com os amigos, ou até mesmo no trabalho? Quem sabia se ele ao menos possuía um emprego?

O que eu quero dizer é que cruzamos com pessoas com fardos todos os dias, mas só vemos suas roupas, seus sorrisos ou caras amarradas, sua pressa. Não sabemos quem perdeu um ente querido recentemente e o quão doloroso isso pode ser para essa pessoa. Não sabemos quem enfrenta uma doença complicada todos os dias, mas sai de casa com um sorriso no rosto porque tem esperanças. Não sabemos quem possui problemas no relacionamento e vive seus dias com medo de ficar só.

Nós simplesmente não sabemos.

Se reagimos assim à presença das pessoas que nos são efêmeras, àquelas que sequer conhecemos, imagina só nossa postura com aqueles que fazem parte da nossa vida com mais frequência. Quantas vezes já julguei um amigo, um familiar, uma companheira por uma atitude que meus valores desaprovaram e me esqueci das dificuldades pelas quais eles passaram? Não deveria ser mais fácil reconhecer as nossas falhas nas pessoas que amamos ao invés de culpá-las por erros que muitas vezes também cometemos?

Eu só queria saber reconhecer o momento em que deixei de ser herói e me tornei vilão.

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5 comentários sobre “Vilão.

  1. Adorei! Muito inteligente! Acredito que todos somos vilões e heróis..

  2. Ótima escrita!! Vou começar a acompanhar.

  3. Guilherme C. Pinheiro

    Ainda veremos seu nome em uma livraria!

    Forte Abraço!!!

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