Liberdade e pertencimento.

Já perdi a conta de quantas vezes presenciei alguém enaltecendo a liberdade como se ela fosse o maior prêmio da vida. Mesmo que, pra mim, o grito mais alto das nossas almas seja pelo pertencimento. Nós sentimos necessidade de pertencer a alguém, a um grupo social, a uma causa, a um status qualquer. Sentimos necessidade de seguir uma tendência, de imitar uma inspiração, de parecer com alguma coisa. Somos tão rasos que precisamos nos definir de acordo com as características que compartilhamos com outras pessoas. Nos sentir incluídos nos faz sentir melhor. Mas o que a gente faz quando não se encaixa em canto algum?

Não tô aqui pra apontar uma arma na cara da liberdade e mandar ela tirar essa máscara de perfeição. Só tô me perguntando como eu vou ser livre, se fazer parte das coisas me motiva mais que deixá-las todas para trás.

Quer um exemplo? Busca na memória algum momento de indecisão que você compartilhou com alguém. Lembra agora o discurso pronto: “ficar em cima do muro é pior. Não resolve nada”. Mas, puta que pariu, por que eu preciso escolher? Por que eu sinto que meu livre-arbítrio não é tão livre assim? Afinal, escolher é também condenar, para o bem ou para o mal, um pedaço de mim, a alguma convenção social.

Mas também não serei ingrato. A falta de opção ou a obrigação de uma via de mão única são possibilidades piores que não quero nem considerar. 

Quem sabe eu não decido parar de pensar nisso e escolho fazer algo melhor. Afinal, eu sou livre pra fazer o que eu quiser. 

Eu acho.

Permita.

Permita.
Permuta teu lugar.
Ou muda esse lugar.
Ou aluga um novo lar.
Sei lá.
Sai pra ver o mar.
Respira um novo ar.
Tira teu medo pra dançar.
Espera o dia clarear.
Deixa o novo chegar.
Mas não deixa a vida passar,
Com medo do que vai mudar.

Se permita.
Só não fica aí assim, perdida.

Textura.

Ela o sufocou com tudo o que não foi dito.

Entre letras dançando,
frases imperfeitas,
palavras incompletas,
sentimentos escritos,
amores não traduzidos,
momentos não conjugados,
ele seguia uma estrada dividida
entre prosa e poesia.
E se perdia mais,
cada vez que não dizia.

Os textos não escritos
serviram-lhe de último suspiro.

Pobre coitado,
morreu de textura
sob o sol do meio-dia.

Intercâmbio.

Fiz as malas pra ir morar em você
Viajar pelos seus lábios
Me encontrar nos seus abraços
Conhecer o sotaque dos seus olhos
Me alfabetizar na linguagem do seu corpo
Aprender as gírias da sua ginga

E conjugar o seu amar.

Silêncio a dois.

Quantas letras
vogais e consoantes
palavras consonantes
já fizeram algum sentido
ou te serviram de abrigo
quando estávamos a sós?

Eram meus
os teus lábios mordidos
os teus olhos perdidos
os teus ouvidos ardidos

Eram teus
o meu meio sorriso
o meu beijo sem aviso
a minha falta de juízo

E agora, esse silêncio.

Tem noção do prejuízo?

Náufrago 2.

Já não fico mais à deriva,
Não navego mais a esmo.

Já não remo contra a maré,
Não quebro mais a onda
E nem enfrento a tempestade.

Já não bebo dessa água salgada,
Nem me importo com toda essa areia nos meus bolsos.

Eu sou a onda que balança o navio,
Sou o vento que sopra nas docas.
Eu sou a pedra que sustenta o farol,
Sou o cardume que foge da rede.

Sou tudo e não sou nada.
E nado. Nado em cada gota de você.

Sou mar.
Só amar.

 

continuação de Náufrago.

Vilão.

Acordei atrasado. Sem novidades. Esqueci a comida na geladeira. Uma pena, pois já tinha até imaginado como seria o sabor maravilhoso do almoço requentado na cozinha do trabalho. Saí às pressas, de jaqueta, contrariando o sol que fazia às sete e meia da manhã. Eu sabia que era mais um daqueles dias em que São Pedro tenta me enganar.

O caminho de casa ao ponto de ônibus não teve novidades. O senhor que fica na janela a cumprimentar os que passam, continuava lá, debruçado. O vizinho já estava ligando o carro, após beijar a filha e a esposa que iam para a escola. O mercadinho já estava aberto e o cheiro de pão recém-assado me fazia andar mais devagar, só para apreciar o aroma sem igual.

No ônibus, o cobrador ouvia suas músicas nos fones de ouvido e não escutou meu “bom dia”. Eu estava atrasado, mas fiquei mais preocupado com a ignorância de um homem que reclamava da demora do motorista que abria a porta do meio e descia o elevador para uma senhora subir com sua cadeira de rodas.

Eu não consegui sentir raiva deste homem, como me pareceu que sentiram as outras pessoas que o lançavam olhares de reprovação.

Tudo bem, eu entendo que a maioria de nós se sente incomodado com a ofensiva aos que aparentam mais frágeis superficialmente, mas quem sabia das fragilidades daquele homem além do próprio? Quem mais sabia dos problemas que ele enfrentava em casa, com a família, com os amigos, ou até mesmo no trabalho? Quem sabia se ele ao menos possuía um emprego?

O que eu quero dizer é que cruzamos com pessoas com fardos todos os dias, mas só vemos suas roupas, seus sorrisos ou caras amarradas, sua pressa. Não sabemos quem perdeu um ente querido recentemente e o quão doloroso isso pode ser para essa pessoa. Não sabemos quem enfrenta uma doença complicada todos os dias, mas sai de casa com um sorriso no rosto porque tem esperanças. Não sabemos quem possui problemas no relacionamento e vive seus dias com medo de ficar só.

Nós simplesmente não sabemos.

Se reagimos assim à presença das pessoas que nos são efêmeras, àquelas que sequer conhecemos, imagina só nossa postura com aqueles que fazem parte da nossa vida com mais frequência. Quantas vezes já julguei um amigo, um familiar, uma companheira por uma atitude que meus valores desaprovaram e me esqueci das dificuldades pelas quais eles passaram? Não deveria ser mais fácil reconhecer as nossas falhas nas pessoas que amamos ao invés de culpá-las por erros que muitas vezes também cometemos?

Eu só queria saber reconhecer o momento em que deixei de ser herói e me tornei vilão.